Vamos Desenrolar o Futebol na Favela: do amador ao profissional

publicado em Notícias
por Luã Reis
fotos de Bento Fábio

 

O último fim de semana de verão foi chuvoso e com temperaturas baixas. O que não desanimou ninguém para o Vamos_MG_4831 Desenrolar sobre o Futebol na Favela. Pelo contrário, “esse clima é perfeito para jogar bola”, falou Ricardo Moura antes de abrir o evento. Em seguida anunciou o primeiro Vamos Desenrolar de 2017 lembrando o futebol jogado na rua que se perdeu, cujo objetivo dessa edição foi resgatar essa memória que também ocupava as ruas do Complexo do Alemão.

 

Os dinamizadores, além de Ricardo, foram Sidney Ottoni, Jorge Baixinho e Carlos Santana, o “flexível”. Sidney, morador do complexo há 38 anos, começou lembrando a juventude, época que “as pernas obedeciam”, quando jogava no Nova Geração, time do qual foi fundador, jogador e técnico. Naquele momento não havia a necessidade de sair do Alemão para jogar, pois havia o Campo da Mina, que agora não existe mais, “deixando a garotada na mão”. “A esperança é que volte”, completou Sidney.

 

Em seguida, Sidney tocou para Jorge Baixinho, ex-jogador que atuou na Paraíba, São Paulo e em clubes cariocas. Após encerrar a carreira como atleta, Jorge decidiu estudar educação física, para assim continuar envolvido com o esporte, o que não foi fácil: “No Brasil, há um preconceito contra quem vem da favela, considerado burro para entrar na faculdade”. Mesmo assim Jorge perseverou e se formou no curso, o que permitiu trabalhar em diversos clubes como o São Cristovão, o Deportivo La Coruña, Bonsucesso e o Bela Vista, onde está atualmente.

 

A formação profissional permitiu a Jorge trabalhar com jovens que sonham em ser jogadores, “o objetivo é tirar os garotos da ociosidade”, o que realiza há 25 anos, sem fins lucrativos. São muitos os desafios, conta Jorge, que os garotos encaram para simplesmente tentar o sonho de ser um jogador profissional: “os garotos chegam sem apoio dos pais ou sequer um café decente”, “muitos talentos fora de série se perdem por não ter dinheiro da passagem”. Os que conseguem avançar na busca, tem que encarar outro risco, os “empresários interesseiros que se aproveitam de pais e garotos.”

 

A ausência do poder público é um desafio constante: “O governo não faz nada. Nenhuma praça de esportes aqui na _MG_4881favela. Acabaram com o campo que tinha aqui, uma relíquia para a criançada da região.” Mesmo assim, Jorge, o baixinho, acredita no talento que nasce ali: “Na favela, há muitos valores, além do esporte. Muitos artistas, por exemplo”. O que falta é oportunidade, acredita, pois “as coisas boas eles aderem”

 

Do treinador Jorge para o goleiro Carlos Santana, o “Flexível”. Nascido e criado na Av, Central, Santana se envolveu com o futebol criança “carregando a chuteiras dos mais velhos”, depois foi roupeiro, para finalmente se tornar goleiro do Colorado, onde jogou por 16 anos. “Foram vários dedões perdidos” nessa trajetória, conta. Santana recorda dos grandes times do Complexo do Alemão: eram “Colorado, Estrela, Mundial, Vem Aí, Flamenguinho, Força Jovem, São Vicente, Paraíso, Maravilha, Liberdade, Esperança, Raça, Renegado, Central, Vem Quem Quer, Nova Geração, Tormento”, entre outros. Todos jogavam o principal campeonato que acontecia no Campo da Mina, “quem não jogou na Mina, não jogou o verdadeiro campeonato”.

 

“O MORRO DO ALEMÃO PRECISA DE UM CAMPO URGENTE”

 

“O campo é a chave”, defende Santana, “aos domingos, o Complexo parava e o campo ficava lotado, faz falta. Se o campo voltar, o complexo vai melhorar”. O motivo para o campo ter desaparecido, segundo o Flexível, é “a ausência de liderança e organização” bem como o “desinteresse das organizações em construir novos campos.”

 

Sendo na rua, aberto e com participação livre, o Vamos Desenrolar está sujeito a intervenções de quem estiver na área. Após a fala de Santana, Ivanildo, o “Jacozinho”, ex-jogador de times como Sampaio Correia e Moto Clube conta sua história no esporte, abreviada por conta de problemas particulares. O que fala abertamente, sem tabu: “a sociedade ainda discrimina quem está a margem, foi difícil”. Ivanildo é grato ao apoio de Santana, “que sirvam as palavras do Flexível como exemplo”.

 

Se Santana recordou a importância do campo para a juventude, o coordenador de comunicação do Raízes em Movimento, David Amen, ressaltou o caráter familiar do local: “A alegria das famílias aos domingos” ao irem todos ao campo jogar, torcer e vivenciar o futebol. “Também havia o fator econômico, como a venda de lanches e sucos”. Em um misto de “rivalidade e amizade, o fim do campo da Mina deixou o complexo mais triste.”

 

O campo da Mina foi o assunto que mais mobilizou as falas nesse Vamos Desenrolar, de diversas formas. Santana e _MG_4791Sidney se provocavam, recordando jogos e campeonatos passados. “Ganhei do Sidney de 4 x 1”, ria Santana. “E nós metemos 2 x 1 em vocês por uma semifinal”, respondia Sidney. Mas havia também novas possibilidades naquele campo: “As mulheres começaram a jogar”, conta Sidney, o que era “um prazer em ver a prática se desenvolver”.

 

Por fim, Ricardo ressaltou sua infância que traz uma dimensão além do campo, o futebol na rua mesmo, o famoso “golzinho”. “Sem compromisso, uma forma diferente de se organizar”. “A bola só saía na linha de fundo e valia tabelar com o meio-fio”, o que era “um futebol moleque, que formava talentos.” O local onde acontecia essas peladas era o bloco 17, aonde o “pessoal assistia em cima do muro, e era melhor driblar que fazer gol. Valia muito mais para a resenha”. Quem sofria era a vizinha, cujos vidros não resistiam as boladas.

 

O futebol como espaço para encontros e sociabilidade, um local aberto para encontros e emoções. A ocupação lúdica do espaço público através da inventividade do jogo. Vamos Desenrolar e Futebol na favela se encontram. Faça sol, nublado ou chuva, qualquer tempo serve para quem está disposto a jogar.

 

 


Compartilhar:

Artigos relacionados


A COLETIVIDADE COMO ESTRATÉGIA DE EXIGIBILIDADE
Manifesto questiona postura do Estado em áreas pobres do Rio
Vida Social e Política nas Favelas (Versão Digital)
Projeto Paloma Realiza Almoço Beneficente
No próximo dia 24 tem "Vamos Desenrolar" conversando sobre Moradia

Deixe seu comentário...