Rocinha diz não ao teleférico

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Foi quente o debate realizado nesta sexta-feira no Clube de Engenharia sobre a intenção do governo estadual de instalar um teleférico da Rocinha. Entre as mais de 120 pessoas presentes, boa parte era de moradores da Rocinha, que protestaram contra o teleférico, argumentando que a prioridade na comunidade é o saneamento básico. Em termos de mobilidade, o arquiteto Luiz Carlos Toledo afirmou que o plano inclinado, além de ser muito mais barato e previsto no primeiro plano de urbanização da Rocinha em 2007, não esvazia o comércio local, como o teleférico.

Toledo desconstruiu a ideia de que o teleférico seja uma coisa boa para a Rocinha. Dividiu sua argumentação em quatro pontos.

Charge: Claudius Ceccon

– Primeiro de tudo, o teleférico, por ser uma tecnologia francesa, tem preço variável de acordo com a cotação do dólar, que, atualmente, está em alta. Assim, com esse tipo de investimento, sobraria bem menos para o saneamento básico. Outro fator é que, como o teleférico não para e só diminui a velocidade quando chega às estações, pessoas com alguma dificuldade de movimentação enfrentam problemas ao utilizá-lo ou mesmo deixam de frequentá-lo. E, quando o governo do Estado diz que o teleférico é bem mais rápido do que o plano inclinado, digo que, se investissem na melhoria das vielas da Rocinha, isso melhoraria em muito a mobilidade do morador da Rocinha. O plano inclinado ainda propicia uma integração muito maior do que o teleférico. Nas estações do plano inclinado, poderia se fazer por exemplo uma boa quantidade de espaços de convivência, de comércio e de atividades culturais – disse Toledo.

Diretor do Ibase, Itamar Silva afirmou que o plano inclinado do Morro Santa Marta, do qual é morador, é o melhor equipamento da comunidade, que já teve diferentes planos urbanísticos.

– Embora o plano inclinado do Santa Marta não tenha a manutenção necessária, nele, diferentemente do que ocorre num teleférico, as pessoas carregam compras, materiais para melhoria de suas casas, e parte do lixo é levado por esse equipamento.

Alan Brum, da ONG Raízes em Movimento, trouxe mais um argumento contra o teleférico na Rocinha, aproveitando a experiência do Complexo do Alemão. “No Alemão, o teleférico atende a apenas 7% da população num universo de 140 mil pessoas. O foco no caso é no turismo, não no morador”. No Alemão, por sinal, o problema do saneamento básico está longe de ser equacionado. Representando do governo do Estado, Ícaro Moreno, presidente da Emop, foi bastante questionado pela plateia. Ícaro afirmou que, no debate, que vai promover audiências públicas nos 32 sub-bairros da Rocinha. Lideranças da comunidade, contudo, reclamam que, até agora, a população não foi ouvida sobre o teleférico. “Não escutaram ninguém, e querem colocar um equipamento que já não deu certo no Alemão, em vez de investir no saneamento básico. Alguns Sub-bairros como Vila Verde, onde a questão do esgoto a céu aberto é grave, foram sequer contemplados no PAC 2 (Projeto de Aceleração do Crescimento) do governo federal. E, quando ao PAC 1, na Rocinha, há muitas obras inacabadas. A creche, por exemplo, virou estacionamento. Como podem diante disso quererem construir um teleférico”?

 

fonte: matéria Publicada Originalmente no CanalIbase

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