Onde Estamos - Parte
II
A antiga “freguesia
de Inhaúma”
teve grande importância
histórica
por ser a freguesia
rural, mais tarde,
urbana, mais próxima
ao centro da cidade.
No início
de sua ocupação,
nos séculos
XVI e XVII, Portugal
enviou estrategicamente
para essa região
jesuítas,
militares e funcionários
do governo, principalmente
para próximo
da costa marítima,
com o objetivo de
melhor proteger
o território
da invasão
estrangeira. Desde
os primeiros habitantes,
um dos principais
meio de transporte
da região
era os rios, sendo
usadas pequenas
embarcações
que escoavam toda
a produção
agrícola
para os portos,
de onde era exportada
ou encaminhada para
o centro da cidade.
A região
era dividida em
vários engenhos.
No ano de 1666,
no engenho de “Nossa
Senhora de Nazareth”,
situava-se a Olaria
dos Barreiros que
produzia tijolos
e escoava a sua
produção
através do
porto de “Maria
Angu” nas
proximidades do
atual bairro da
“Penha”,
onde se localiza
uma famosa igreja
carioca, a Igreja
de Nossa Senhora
da Penha.
A área onde
hoje se encontra
o Complexo do Alemão
pertenceu, no passado,
ao Engenho da Pedra
e à Fazenda
das Palmeiras. Ainda
existe a casa grande
da Fazenda das Palmeiras
que funciona, atualmente,
como asilo de idosos.
Mas, infelizmente,
durante a construção
da Linha Amarela,
já nos tempos
atuais, o então
prefeito César
Maia construiu um
condomínio
residencial com
mais de trezentas
moradias populares
do tipo quitinete
nos arredores dessa
casa, desvalorizando
totalmente o patrimônio
cultural e histórico
do nosso bairro.
A primeira paróquia
da região
foi a matriz de
“Santiago
de Inhaúma”
construída
no século
XVII. Hoje essa
igreja se situa
na atual praça
de Inhaúma,
onde se encontra
o primeiro colégio
da região,
a Escola Municipal
“Barão
de Macúba”,
fundada em 1910.
Durante todo o século
XIX, a população
da região
triplicou. Em 1820,
as condições
de exportação
do açúcar
refinado e do café
(principais agro-culturas
do engenho) eram
boas, representando
respectivamente
23,1% e 18,7% do
total das exportações
do Rio de Janeiro,
o que estimulava
a produção
das grandes propriedades
inhaumenses. Entre
1821 e 1871, essas
condições
se alteraram consideravelmente,
estimulando novas
formas de utilização
da terra. O açúcar
participava, então,
com apenas 12, 3
% do total das exportações
quase triplicou
a sua participação,
chegando, em 1873,
a 50,2% do total
das exportações
do Estado. Isso
refletiu no início
do processo de retaliação
das terras pertencentes
aos engenhos, pois,
devido ao fato das
grandes lavouras
de café esgotarem
rapidamente a terra,
se tornava necessário
um constante deslocamento
de suas plantações,
deixando para trás
terras esgotadas.
A freguesia de Inhaúma
foi pioneira na
implantação
de grandes lavouras
cafeeiras que, na
segunda metade do
século XIX,
já se encontravam
em processo de decadência.
O território
da região
teve importante
papel, também,
na época
da exploração
do ouro nas Minas
Gerais, quando o
Rio de Janeiro era
o principal escoadouro
da produção
mineira. Na freguesia
de Inhaúma
se tinha uma das
vias de transporte
mais rápida
até os portos,
onde se utilizavam
pequenas embarcações
pelos rios “Faria,
Jacaré e
Timbó”,
esse último
passando aos sopés
do Complexo do Alemão.
Além disso,
havia duas estradas
(São Paulo,
atual Dom Hélder
Câmara, e
Estrada Velha da
Pavuna, atual Ademar
Bebiano) que faziam
a comunicação
das Minas Gerais
com o centro da
cidade, assim como,
com a capitania
de São Paulo.
A freguesia rural
dava lugar à
área suburbana
residencial proletária
mais importante
do Distrito Federal
do Rio de Janeiro
nas duas primeiras
décadas do
século XX.
Em 1903 a Freguesia
de Inhaúma
virou o 19º
distrito do Rio
de Janeiro.
Os principais meios
de transporte dos
trabalhadores até
o centro da cidade
eram as embarcações
que faziam paradas
nos portos de “Maria
Angu” e “Caju”.
Em 23 de outubro
de 1886, foram inauguradas
as quatro estações
férreas da
região, Carlos
Chagas, Bonsucesso,
Olaria e Ramos,
construídas
pela companhia inglesa
da Leopoldina Railway.
Mesmo assim, as
companhias de embarcações
continuaram a fazer
linhas no porto
de “Maria
Angu” nas
épocas de
festas de Nossa
Senhora da Penha.
A partir da década
de 1920, o que se
tinha na região
eram inúmeras
propriedades de
pequeno porte com
uma grande variedade
de produções
e com muitas pessoas
a procura de novas
propriedades.
Fazendo um salto
aos tempos de hoje,
segundo informações
conseguidas através
da XXIX R. A (Complexo
do Alemão),
a região
abrange 437.880
m² e o ponto
culminante está
a 138 m de altura,
tendo em seu topo
uma área
florestal que abrange
30% da região.
Quanto à
infra-estrutura,
temos fornecimento
de luz elétrica
em todo o assentamento,
mas, devido a algumas
instalações
precárias,
a luz se torna fraca
e, ás vezes,
falta. No verão,
o mesmo acontece
com a água
encanada que chega
na maioria das casas,
mas ainda há
moradores que se
abastecem de poços
artesianos e algumas
nascentes de água
que somam doze no
total. No que diz
respeito à
rede de esgotos,
se constata uma
certa precariedade
em alguns pontos
onde se encontram
valas negras a céu
aberto com a população
despejando o esgoto
direto nos corpos
hídricos,
que, em alguns casos,
passam em frente
a algumas moradias.
Por isso, algumas
crianças
que brincam ao redor
dessas valas, assim
como o restante
dos moradores, correm
risco de serem contaminados
com algum tipo de
doença. Outro
fator que contribui
para que isso aconteça
são os lixões
que, apesar de serem
poucos, ainda existem
na região.
Esses lixões
não se tornam
maiores graças
ao serviço
de “garis
comunitários”,
implementado pela
prefeitura através
da Comlurb, empresa
responsável
pela coleta de lixo.
Em algumas fontes
pesquisadas por
nós, não
foi encontrado nenhum
posto de saúde
dentro da comunidade,
no entanto, existem
nas proximidades
alguns postos que
atendem com precariedade
a população
do Complexo do Alemão.
São eles
o PAM (Posto de
Atendimento Médico)
de Ramos, o PAM
de Del Castilho,
o posto de saúde
da praia de Ramos
e o PAM do Engenho
da Rainha. Muitas
vezes, não
é possível
o atendimento nesses
postos e, com isso,
as pessoas são
encaminhadas para
locais mais distantes.
Uma coisa muito
comum e que, às
vezes é retratada
nos jornais da cidade,
é a chegada,
ainda na madrugada,
dos moradores nos
postos de saúde
pra conseguir, depois
de uma longa espera,
um atendimento que,
geralmente, é
de péssima
qualidade.
Em relação
ao transporte público,
existem oito empresas
de ônibus
que cobrem a região
e que só
funcionam até
às 0h. Depois,
quem deseja se dirigir
a outros pontos
da cidade só
tem como opção
as kombis de lotação
que, antes, nesses
horários,
cobravam tarifas
acima do preço
normal, fato que
mudou depois da
diminuição
dos fregueses. Cabe
lembrar que esses
meios de transporte
estão, na
maioria das vezes,
em situação
irregular, mas,
apesar disso, são
de extrema importância
para a população
local, pois, além
de atenderem suas
necessidades de
locomoção,
que não são
plenamente supridas
pelas empresas de
ônibus, fazem
parte também
do sistema de economia
informal, oferecendo
vagas de emprego
para um certo número
de pessoas da comunidade,
que, se não
fossem essas possibilidades,
estariam desempregadas,
como acontece com
grande parte de
outros moradores.
Temos também
os serviços
de “moto táxi”
que levam os usuários
a qualquer parte
da favela. Os moradores
que não utilizam
esses serviços,
são obrigados
a andar longas distâncias
até suas
casas, às
vezes, tendo que
subir ladeiras muito
íngrimes.
O sistema ferroviário,
com quatro estações
(Olaria, Ramos,
Bonsucesso e Penha)
que ligam a comunidade
à Central
do Brasil, também
é bastante
utilizado. Existe
também o
transporte metroviário
que liga a Baixada
ao Centro e abrange
parte do bairro
de Inhaúma,
sendo utilizado
por uma pequena
parte dos moradores
do Complexo. É
importante informar
que tanto o sistema
ferroviário,
quanto o metroviário,
estão fora
dos limites da favela.
Com relação
ao comércio,
a região
conta com pelo menos
três grandes
redes de supermercados,
todos fora das favelas
do Complexo, além
de contar com um
variado número
de estabelecimentos
dentro da favela,
como açougues,
farmácias,
biroscas, pequenas
lojas de roupas,
armarinhos, pequenas
papelarias, pequenos
mercados e algumas
feiras livres.
O Complexo do Alemão
tem sido contemplado,
ultimamente, com
alguns projetos
sociais de cunho
educacional que
vem facilitando
e melhorando a qualidade
de vida de algumas
pessoas. Temos,
por exemplo, os
projetos Vida Nova,
Telessala (1º
e 2º grau),
pré-vestibular
comunitário,
entre outros. Mas
como a comunidade
possui uma extensão
territorial muito
grande e cerca de
250 mil moradores,
esses projetos não
atingem a todos,
beneficiando uma
porcentagem pequena
das pessoas que
necessitam desses
benefícios.
Existem, pelo que
encontramos, três
escolas dentro do
Complexo do Alemão,
a Escola Municipal
Mourão Filho,
o Ciep Theóphilo
de Souza Pinto e
a escola Municipal
Henrique Foresis,
que atende até
a quarta série.
As demais escolas
que atendem ao Complexo
se situam fora de
seus limites e são
a Escola Municipal
Walt Disney, Escola
Municipal Padre
Manuel da Nóbrega,
Escola Municipal
João Barbalho,
que à noite
se transforma em
Escola Estadual
Taciel Cileno, Colégio
Cardeal Leme (particular)
que à noite
se transforma em
Escola Estadual
Zélia Gonzáles,
Escola Municipal
Chile, Colégio
Pinheiro (particular),
Instituto Relvas
(particular) e Escola
Estadual Carneiro
Ribeiro. Apesar
desse número
de escolas, não
é raro encontrar
criança sem
matrícula,
mesmo porque, devido
ao grande número
de moradores, essas
escolas não
suprem toda a demanda
do Complexo.
Existe também
um sistema de creches
bastante utilizado
pelas famílias
da comunidade. São
creches educativas
e, a maioria delas,
são financiadas
pela prefeitura.
No Morro da Baiana
existe a Creche
Eliane Saturnino
Braga; no Morro
do Adeus, a Creche
São Pedro
Nolasco e a Escola
Comunitária
Pedro Vileli; no
Morro do Alemão,
a Creche pré-escolar
João Ferreira;
no Morro do Itararé,
a Creche Escola
e a Creche Cemasi
José Vieira
da Silva; em Nova
Brasília,
o Jardim Escola
Novo Mundo, o Centro
Educacional Estrela
da Manhã,
o Ciep Theóphilo
de Souza Pinto,
a Creche Cemasi
Nova Vida e a Creche
Mundo Feliz. Em
todas as creches,
as crianças
aprendem, se alimentam
na hora certa e
brincam, mas as
vagas também
não são
suficientes para
atender toda a população,
por isso não
é raro encontrar
crianças
perambulando à
toa pelas vielas
das favelas e em
situação
de abandono.
As rondas policiais
são feitas
pelas polícias
Militar e Civil,
como também
pelo BOP (Batalhão
de Operações
Especiais da Polícia
Militar). Em alguns
casos, a atuação
da polícia,
às vezes,
é violenta.
São comuns
tiroteios entre
policiais e traficantes,
resultando, muitas
vezes, em ferimentos
por balas, seguidos
de morte, em pessoas
inocentes. É
comum os moradores
tomarem “dura”,
principalmente os
jovens. Essas duras
visam a apreensão
de pequenas quantidades
de drogas encontradas
com usuários,
mas, algumas vezes,
resultam em extorsão,
por parte dos policiais,
de dinheiro que
esses usuários
são obrigados
a pagar para não
serem presos ou
agredidos. Em certos
casos, qualquer
tipo de infração,
por menor que ela
possa ser, torna-se
motivo de agressão
por parte dos policiais.
As grandes festas
populares que acontecem
aqui são
os bailes funk,
realizados freqüentemente
nas praças
e quadras da comunidade,
uma das pouquíssimas
formas de lazer
da população
da favela. Se não
fossem os bailes
e os pagodes, não
existiria quase
nada voltado para
o lazer dos moradores.
Eles são
organizados pelas
associações
de moradores em
parceria com equipes
de som. Também
existem alguns forrós,
que acontecem na
sexta e no sábado,
freqüentados,
na maior parte das
vezes, pelos moradores
de origem nordestina
residente e por
poucos jovens. Os
pagodes também
acontecem de vez
em quando nos mesmos
locais dos bailes
funk, mas só
enchem mesmo quando
aparece uma atração
conhecida. Quando
são grupos
anônimos a
freqüência
não é
tão intensa.
Os centros culturais
dos bairros estão
todos fora dos limites
das favelas. São
pouco freqüentados
pelos moradores
dos morros e favelas
pelo fato de não
atenderem às
expectativas da
grande massa dos
jovens que preferem
outros tipos de
lazer. No entanto,
os shows musicais
têm sido,
ultimamente, a grande
atração
para aqueles que
procuram algo diferente
dos bailes funk.
Alguns dos grandes
nomes da MPB já
se apresentam na
comunidade, tais
como Caetano Veloso,
as bandas O Rappa,
Cidade Negra, Gabriel,
o Pensador, entre
outros, lembrando
que esses shows
não acontecem
com freqüência.
A Escola de Samba
Imperatriz Leopoldinense
também se
situa a poucos metros
do Morro do Alemão,
mas, como cobra
ingresso, só
é mais freqüentada
pelas pessoas da
comunidade quando
há entrada
franca ou próximo
ao carnaval.
Existem cinco campos
de futebol espalhados
pelas comunidades
onde acontecem campeonatos
anuais e algumas
“peladas organizadas”.
Os campeonatos são
organizados pelos
times da comunidade
mesmo, que fazem
tudo: comunicam-se
entre eles, organizam
os horários
etc.
Apesar de ter uma
grande extensão
territorial, o Complexo
do Alemão
não dispõe
de nenhum cinema
ou teatro. Os mais
próximos
se encontram nos
shoppings nas redondezas,
não atendendo
a grande maioria
da população
favelada devido
ao valor dos ingressos
que estão
além das
possibilidades dos
moradores. As bibliotecas
existentes atendem
a uma minoria dos
moradores, pois
se localizam na
R. A. (Região
Administrativa)
e no SESC de Ramos,
fora dos morros
e favelas. Em relação
aos Fóruns
Judiciais, não
existe nenhum nas
proximidades do
Complexo.
Existem aproximadamente
trinta e oito igrejas,
evangélicas
e católicas,
e também
centros espíritas
não contabilizados,
sendo grande a freqüência
dos moradores. Muitas
vezes, as instituições
religiosas ajudam
as pessoas mais
necessitadas com
mantimentos, roupas,
calçados
e, também,
com o “cheque
cidadão”
implementado pelo
governo do Estado,
a fim de melhorar
a alimentação
dos moradores das
favelas. O “cheque
cidadão”
funciona através
de um cadastramento
de famílias
de baixa renda que
é feito nas
igrejas que fazem
reuniões
periódicas
com as pessoas cadastradas
e distribuem os
cheques vindos de
Brasília.
Grande parte dos
moradores das favelas
trabalham nos comércios
que se localizam
na própria
comunidade e, uma
outra grande parte,
trabalha fora da
comunidade. Muitos
têm o propósito
de conseguir seu
emprego trabalhando
por conta própria.
Existem também
diversas pessoas
idosas que se mantêm
com a aposentadoria
e outras que são
mantidas com pensões
familiares. Alguns
moradores se profissionalizaram
em trabalhos sociais
e existem que são
advogados, médicos,
professores, garis,
etc, muitos prestando
serviços
na própria
comunidade.
Existe uma banda
carioca que tem
uma música
chamada “021”
que, num trecho,
diz o seguinte:
“é
muito fácil
falar de coisas
belas, de frente
para o mar e de
costas pra favela”,
daí se pode
tirar uma comparação
entre qualquer favela
e o resto da cidade.
Aqui não
estamos acostumados
a presenciar turistas,
sejam eles de outro
estado ou até
mesmo de outro país.
Ninguém está
interessado em levar
para sua casa um
cartão postal
com uma foto da
favela, até
porque não
existe. Mesmo porque
não há
muita beleza ou
conforto nas favelas,
principalmente se
comparada com a
Zona Sul carioca.
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