Entrevista com Sadraque Santos
Por David da Silva

 

Perfil:

Sadraque Santos de Souza, 41 anos, fotografa já há quatro anos, porém com uma experiência dos grandes mestres desta arte. Atualmente desenvolve trabalhos profissionais como fotógrafo pela ONG Observatório de Favelas no Complexo da Maré e pelo Grupo Sócio Cultural Raízes em Movimento, ONG que atua no Complexo do Alemão e sua instituição de origem.
 
Sadraque e David na sede do Raízes
em Movimento, no Complexo do Alemão - RJ

 

''Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração.''
Henry Cartier-Bresson
dra

Sadraque leva essas palavras bem ao pé da letra complementando com referências que tem dos grandes professores da fotografia.

Conheceu vários profissionais da área, e teve uma identificação particular com os trabalhos de dois grandes experts da arte de fotografar. Seu orientador até hoje, João Roberto Ripper e o fotógrafo mais conceituado pelos belos trabalhos expostos para todo o mundo, Henri Cartier Bresson. Ambos com a característica da fotografia artística e de estarem sempre com os olhares voltados para as questões sociais, fortalecendo e valorizando as classes menos favorecidas.


Bresson, além desse perfil, desenvolvia uma técnica especial para a fotografia que é o que se chama de “Momento Decisivo”,e dominava bem esta técnica. Tinha um olhar apurado e aguardava sempre o melhor momento para o registro, assim, não perdia a fluidez do tema. Estava sempre ali, no momento certo e no lugar certo, a fim de captar dos outros alguma expressão, algum silêncio. Vale ressaltar que, segundo nosso entrevistado, Bresson usava uma “Leica” comum, câmera projetada especialmente para ele, e estamos falando de décadas de 20 e 30.

Sadraque acredita muito na proposta desses dois artistas e por isso não consegue mais fotografar se não for no sentido de enviar uma mensagem, um sentimento. “É possível tratar do social através da fotografia”, diz.

Entrevista:

David -
Como você iniciou na fotografia?

Sadraque - Bom, sempre tive vínculo com trabalhos artísticos e sociais. Desde 2001 atuo no Grupo Sócio Cultural Raízes em Movimento, e a oportunidade de estudar fotografia profissional e artisticamente surgiu através deste trabalho que desenvolvemos no Complexo do Alemão.

David - Como aconteceu?

Sadraque – Nossa ONG se articulava com diversas outras instituições, a fim de estabelecer parcerias para implementar projetos na comunidade. O Observatório de Favelas foi uma destas, e logo apoiou nossa iniciativa. O Observatório iniciava a Escola de Fotógrafos quando entrou em contato conosco solicitando a indicação de uma pessoa para complementar a turma. O indicado fui eu.
Foi muito difícil no início, mas minha força de vontade superou as dificuldades. Hoje sou fotógrafo profissional na instituição em que fiz meu curso e multiplico todo o meu conhecimento nas comunidades em que atuo e nas fotos que tiro.

David Por que difícil?

Sadraque – Quando comecei, o Observatório era mais distante do que é hoje e muitas vezes não tinha dinheiro para transporte. Sou muito grato a Dona Neuza, mãe do Alan (Coordenador geral do Raízes em Movimento), que me ajudava tanto financeiramente, quanto me dando força para eu seguir em frente.
Diversas vezes fui a pé, de bicicleta sob sol escaldante, mas quase sempre fui salvo pela Dona Neusa quando me fornecia o da passagem de ônibus. Enfim, as coisas são difíceis mesmo, temos que acreditar que iremos conseguir.

David - O que isto mudou na sua perspectiva de vida?

Sadraque – Muita coisa! Primeiro pude entender que fotografia é expressão de sentimentos, e o mais importante que é a responsabilidade que a fotografia tem com o contexto social. É possível criticar socialmente através de fotos ou pelo menos levantar uma discussão sobre um assunto que envolva diretamente a vida em sociedade, em particular as favelas.

David Por que fotografar favelas?

Sadraque – A favela é um mundo inexplorado, as pessoas só falam de tráfico, violência e dizem que os maiores problemas da sociedade são as favelas. Mas não percebem que dentro das favelas menos de 1% das pessoas são envolvidas com o tráfico de drogas. Aqui no Complexo do Alemão somos aproximadamente 250 mil moradores. Você acha que temos 2.500 traficantes?
A sociedade deve saber a diferença entre conivência e convivência com o tráfico, para falar deve entrar numa favela e ver as reais necessidades e não formar opinião através de jornais ou televisão somente. Devem olhar com outros olhos, tem que ter mais emoção e menos razão.
A pessoa que mora no alto do morro não é culpada por estar ali. Ela se encontra em tal situação porque existe uma minoria com condições melhores. Mas a única diferença que existe é a quantidade de dinheiro que têm no banco. Deve-se ter sentimento nas coisas que fazem, afinal somos iguais. Quero transparecer isso nas minhas fotos.

David - Como sua experiência pode ser convertida para sua Comunidade?

Sadraque – Através das oficinas que realizamos com jovens interessados em fotografia, trazer maior conhecimento e visibilidade, levantar a auto estima, acabar com o estereótipo que foto é só para um grupo especifico da sociedade - A fotografia é para todos! Trabalhar a descolonização do olhar. Fortalecer cada vez e dar visibilidades aos espaços populares, oferecendo uma capacitação profissional e uma chance de emprego.

"Aqui no Complexo do Alemão somos aproximadamente 250 mil moradores. Você acha que temos 2.500 traficantes?"

 

Fonte: www.nucleoweb.com.br

Autor da reportagem:
David da Silva - Morador do Complexo do Alemão,
Estudante de Jornalismoda da Facha
Coordenador de Comunicação do Raízes em Movimento
davi.amen@raizesemmovimento.org.br


 
Fotos: Sadraque Santos
 
 
 
 
 
 
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