David Silva
Publicado em 11/1/2008 no portal do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase (www.ibase.br).
O gestor ambiental e diretor da ONG Verdejar (Complexo do Alemão), Sérgio Ricardo, traz detalhes importantes para o enriquecimento do debate envolvendo desenvolvimento econômico e meio ambiente. Segundo ele, “há um componente étnico e de gênero na história desse capitalismo predatório e excludente que temos aí”.
David Silva– O que é ecologia de mercado?
Sérgio Ricardo – O capitalismo, hoje, se organiza de uma forma diferente. Alguns séculos atrás, buscava nas cidades, nos países, mão-de-obra assalariada ou escrava. Hoje, com a globalização econômica, o neoliberalismo, as escolhas das empresas levam em conta os bens da natureza, os recursos ambientais: onde há água para gerar energia, onde há biodiversidade, onde há floresta, onde há recursos minerais, onde há insumos energéticos.
O Brasil acaba sendo estratégico em função da sua riqueza ecológica. O Brasil precisa buscar desenvolvimento autônomo, desenvolver a sua economia nacional e impedir a apropriação dos bens da natureza por corporações estrangeiras.
E o que se contrapõe a isso? O movimento de justiça ambiental. Ele vem discutindo o acesso e a distribuição desigual dos bens da natureza. Na prática, as populações mais pobres, a classe trabalhadora, são excluídas ambientais, pois não têm acesso ao saneamento.
David Silva– Como podemos constatar na prática a ecologia de mercado?
Sérgio Ricardo – A monocultura, seja do etanol, seja do eucalipto, por exemplo. Está havendo uma aliança impensável há poucos anos. Aliança das antigas oligarquias rurais e de latifundiários com bancos e grandes corporações internacionais da área de energia. Para que o Brasil vire uma nova colônia agrícola e, com isso, exporte celulose ou etanol. A ocupação de grandes territórios por monoculturas leva à redução da produção dos alimentos que, em 90% dos casos, tem como origem a agricultura familiar e os assentamentos da reforma agrária. A desterritorialização provocada pelos agronegócios e pelas monoculturas, com financiamento público, leva a uma concentração latifundiária ou uma reconcentração.
David Silva– O que mostra é um quadro de desenvolvimento econômico que não leva em conta o desenvolvimento social e humano...
Sérgio Ricardo – Isso é decisivo, porque desenvolvimento econômico que não distribui riqueza, não traz desenvolvimento social e humano. O grande debate hoje é: quem se apropria dos recursos naturais e ambientais e das riquezas do modelo econômico? Não é possível ter planos como o PAC e políticas desenvolvimentistas financiadas pelo BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica se não for levado em conta que a população como um todo precisa ter garantia de acesso aos bens naturais. Nós estamos chegando a uma situação limite em que há disputa por água. Há preconceito na área urbana e área rural, onde agricultores e pescadores em torno das áreas verdes são perseguidos pelos órgãos ambientais como se fossem os maiores criminosos da natureza.
David Silva– Como se instalou esse modelo de ecologia no Brasil?
Sérgio Ricardo – Os ciclos econômicos do país foram altamente predatórios. Isso não está nos livros escolares. A gente aprende o ciclo da mineração, do café, do pau Brasil e da cana-de-açúcar como se fossem ciclos de desenvolvimento econômico. A origem do problema ambiental das cidades brasileiras está nesses ciclos econômicos. O discurso oficial do governo federal é de que o meio ambiente, hoje, é o maior empecilho ou, o que chamam de gargalo ao desenvolvimento econômico.
David Silva– Como você avalia o posicionamento do Ministério do Meio Ambiente frente a esta realidade?
Sérgio Ricardo – Vejo a política ambiental do governo federal com grande decepção. A maior expressão é que o Ministério do Meio Ambiente não tem um único programa voltado para justiça ambiental. O que é uma grande contradição, pois a ministra é uma mulher de origem seringueira, de população tradicional etc. E na sua vida, ela foi vítima dessa desigualdade ambiental. O que vejo de mais positivo é a tentativa de reconstrução de órgãos ambientais como o Ibama, por exemplo. A abertura de concursos públicos.