Aluízio Freire/G1
A barricada da Força de Segurança fica na entrada da rua onde estão os painéis pintados pelo grupo (Foto: Aluízio Freire/G1)
Sob
a mira de fuzis, apontados por soldados da Força Nacional de Segurança,
entrincheirados nos acessos das favelas, os moradores do conjunto do
Alemão seguem cruzando as ruas indiferentes ao clima de guerra
constante nas comunidades.
Veja galeria de fotos produzidas pelo Raízes em Movimento especial para o G1
Nos
últimos dias, o que mudou no cotidiano dessas pessoas é o cochicho nos
becos e esquinas sobre o início do PAC (Programa de Aceleração do
Crescimento, do governo federal) e a visita do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva para lançamento das obras.
Embora
a expectativa de conquistar uma vaga de trabalho seja positiva,
percebe-se que a aparente indiferença é apenas uma arma de
sobrevivência. Na verdade, ainda paira no ar o pesadelo de um possível
confronto quando a polícia ocupar a região.
Preocupados
com uma investida trágica - ao longo de quatro meses 70
pessoas morreram e cerca de cem ficaram feridas em operações policiais
no local -, um "exército" está se preparando para conter as ações
violentas que resultem em outras mortes de inocentes. Os recrutas dessa
"tropa" são comandados pelo Grupo Cultural Raízes em Movimento que atua
nas 12 comunidades com uma população de aproximadamente 150 mil
pessoas, segundo as associações de moradores.
A
equipe, que trabalha com atividades culturais e educativas no Alemão
desde 2001, quer garantir voz e espaço para continuar com o movimento
que já beneficiou cerca de duas mil pessoas em seus seis anos de
existência. Na pequena sede encravada dentro do Alemão, em Ramos, no
subúrbio do Rio, crianças e adolescentes aprendem um ofício como
pintura, tecelagem, artesanato, música, dança, teatro, fotografia,
técnicas de grafites, produção de vídeos e elaboração de jornais
comunitários.
“Obras, por si só, não mudam as pessoas. O que pode mudar é o acesso à
educação, à cultura, que são os verdadeiros ativos que ficam para as
comunidades. A violência deixou as pessoas daqui sem perspectivas.
Agora, estamos diante de uma chance histórica de mudar essa realidade,
mas é preciso que os jovens, que são as maiores vítimas e promotores
dessa violência, tenham chances de participar desse processo, de
valorizar esse projeto como algo transformador. Estamos tentando
colaborar, já que o nosso trabalho existe aqui dentro antes de surgir
essas promessas do governo”, afirma o antropólogo Alan Brum Pinheiro,
presidente do Raízes em Movimento.
Circulando
Para
divulgar os trabalhos das equipes, eles criaram o Circulando, evento
itinerante dentro das favelas com exposições de grafites, pinturas,
fotografias e vídeos com documentários sobre o cotidiano da favela. Em
junho do ano passado, a exposição na Avenida Central, via que corta o
conjunto de favelas, e as oficinas nas lajes das casas foram canceladas
por causa de uma incursão policial. Já são 53 painéis pintados nos
muros e fachadas das casas.
“Queremos
que as pessoas aprendam um ofício e sintam orgulho do que fazem. Só
assim serão capazes de valorizar seus trabalhos lá fora e disputar um
espaço no mercado”, completa Alan. Um bom exemplo é seu sobrinho, o
fotógrafo Maycom Brum de Almeida, 20 anos, que registra com sua máquina
o dia-a-dia da complexa comunidade. Ele cedeu algumas fotos que
ilustram essa reportagem.
David da Silva, 26, coordenador de comunicação do Raízes, e Mário, estudante de publicidade responsável pelo site http://www.raizesemmovimento.org.br/,
são outros jovens que se destacam como referência na
comunidade. Os talentos da pintura são Tiago Tosh e Beto Era,
que fizeram painéis gigantes nos muros e paredes da Avenida
Central para denunciar o cotidiano de violência nas favelas e a
violação dos direitos humanos em algumas ações arbitrárias da polícia.
O próximo Circulando será no dia 29 de março.
Trabalhos fora da favela
Alguns
trabalhos da equipe já ganharam destaque fora da favela, como a pintura
temática no muro principal de um dos campus da Faculdades Integradas
Hélio Alonso, a Facha, em Botafogo, na Zona Sul. A outra iniciativa do
Raízes, em parceria com o Sesc, é o Motirô, com oficinas de comunicação
e meio ambiente, além de promover atividades de esporte e lazer. Pelo
menos 50 alunos do ensino médio matriculados em escolas públicas do
Alemão e do conjunto de favelas da Penha são atendidos pelo projeto.
Os integrantes desses movimentos estão otimistas com as mudanças
propostas para o Alemão. Às vezes, acham que tudo não passa de uma
grande utopia. Mas, no momento, estão dispostos a sonhar.
O Alemão
O
conjunto de favelas do Alemão é formado por 12 favelas como o Morro
Alemão, Grota, Nova Brasília, Alvorada, Alto Florestal, Itararé, Morro
da Baiana, Morro do Mineiro, Morro da Esperança, Joaquim de Queiroz,
Cruzeiro, Morro das Palmeiras. As comunidades estão localizadas na
Serra da Misericórdia, parte central da região da Leopoldina,
abrangendo uma área formada por cinco bairros: Inhaúma, Bonsucesso,
Ramos, Olaria e Penha.
O que será feito pelo PAC
Segundo
a Secretaria estadual de Obras, a comunidade vai ganhar obras de
infra-estrutura, com abastecimento de água e redes de esgoto, escolas,
postos de saúde e pavimentação, além de um teleférico e 2.620 unidades
habitacionais e melhorias de outras 4 mil casas.
Materia publicada no Portal G1 - 22/02/2008 - Link direto