| 17/08/07
- Jornal O GLOBO
- Opinião
- Página
7
Nas favelas,
falta perspectiva
O
PAC federal
corre o risco
de reproduzir
os limites
do
Favela-Bairro
municipal
As favelas
da cidade
do Rio de
Janeiro estão
atualmente
profundamente
associadas
à violência
e à
criminalidade.
No entanto,
isto nem sempre
foi assim:
historicamente,
as
comunidades
estiveram
associadas
ao carnaval,
à jocosidade
carioca, ao
futebol, ao
samba e às
paixões,
em suma, às
"nossas
roupas comuns
dependuradas",
em uma visão
idílica
e romântica
da
pobreza. Mas
o fato é
que, após
um período,
principalmente
nos
anos 60, quando
predominou
a política
de remoção,
as favelas
se
consolidaram
na cidade.
Tornaram-se
um componente
importante
da paisagem
urbana - e,
como
conseqüência,
várias
políticas
públicas
com ênfase
na sua
consolidação
foram implementadas.
A mais importante,
sem sombra
de dúvida,
foi o Programa
Favela
Bairro, que,
levado a cabo
pela Prefeitura
a partir do
final dos
anos 80, buscou
integrar física
e socialmente
a favela à
cidade.
Foram realizados
investimentos
significativos
que urbanizaram
diversas comunidades,
criando vias
de circulação,
implantando
equipamentos
coletivos,
obras de saneamento,
remanejando
moradias
quando em
situação
de risco,
entre outras
melhorias.
Foi uma ação
de impacto
que teve o
mérito
de ultrapassar
o padrão
de ações
pontuais.
Apesar dessa
importante
política
pública,
não
houve, porém,
modificações
significativas
nas vidas
individuais
e coletivas
dos
moradores
das favelas,
naquilo que
dependem dos
poderes públicos
e
de condições
sociais mais
amplas. Pelo
contrário,
a pobreza
continuou
em grande
medida intocada,
a violência
e a criminalidade
aumentaram
- e ser "favelado"
ainda é
um estigma.
E, é
importante
ressaltar,
no que diz
respeito aos
aspectos urbanísticos,
os
limites físicos
das favelas
demarcados
pelo programa
foram
ultrapassados,
e grande parte
das obras
foi depredada
ou deteriorada.
Sendo assim,
pode-se dizer
que o programa
foi "engolido"
pela
favela, não
tendo sido
capaz de reorientar
a vida de
seus moradores.
Argumenta-se
que faltou
à iniciativa
governamental
uma ação
mais
decisiva no
plano social.
Recentemente,
o governo
federal, o
governo do
estado e a
prefeitura
anunciaram
para o município
do Rio um
importante
programa de
investimentos
nas favelas,
incluindo
a urbanização
do
Complexo do
Alemão,
do Complexo
de Manguinhos,
da Rocinha
e de
outros locais.
São
ações
vinculadas
ao Programa
de Aceleração
do
Crescimento
(PAC), que,
nessa dimensão,
representa
uma nova
investida
estratégica
em relação
às
favelas. Os
recursos são
vultosos (R$
495 milhões
apenas para
o Complexo
do Alemão,
conforme noticiado
pelo GLOBO
em julho):
existe um
empenho real
para a sua
implementação
e um consenso
quanto à
necessidade
de
transformar
as condições
vigentes nas
comunidades,
principalmente
em relação
à violência.
No entanto,
pode-se reproduzir
situação
análoga
à do
Programa
Favela Bairro,
se a ação
do PAC for
reduzida a
obras de
infra-estrutura
e de equipamentos
coletivos
- este viés
já
demonstrou
seus limites.
Este pode
ser um momento
privilegiado
para se inovar,
para se
abrir um diálogo
da favela
com seu entorno
e, na prática,
fortalecer
as relações
democráticas
entre as instituições
locais,
como ONGs,
associações
de moradores
representativas,
instituições
religiosas,
entre outras,
e o poder
público.
São
os moradores
os
principais
detentores
do saber sobre
o território,
de resto,
tão
singular.
A partir desse
diálogo,
pode-se incluir
no PAC, por
exemplo,
programas
de inclusão
socioprodutiva
que incorporem
iniciativas
de
capacitação,
estimulando
empreendimentos
econômicos.
É necessário
aproveitar
as potencialidade
da mão-de-obra
local,
requalificandoa,
seja na construção
das obras,
seja na gestão
e
operação
dos equipamentos
coletivos.
Essas iniciativas
poderão
oferecer algo
subjetivo
que está
terrivelmente
em falta:
perspectiva.
Confiança
mínima
para que os
moradores
estabeleçam
referências
capazes de
fazer com
que acreditem
na possibilidade
de
mudança
das suas biografias,
individuais
e coletivas.
Por: Itamar
Silva e Paulo
Magalhães
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